quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Euro era ouro. Virou besouro

Gustavo Maia Gomes
Grécia atolada em dívidas, o euro prestes a desmanchar, desemprego crescente, economias declinantes, depredações em Atenas, pavor de uma crise bancária, repetidos deixa-cum-nói de Merkel e Sarkozy... Nos jornais, 1.234 notícias sobre a crise; na internet, 4.321 outras. Leio todas. Será que entendi alguma coisa? Inseguro, divido com o leitor o estado atual de minha ignorância.
RAÍZES

A interpretação mais difundida da crise é, em linhas gerais, a seguinte: Grécia, Portugal, Espanha e Itália passaram anos gastando além do que arrecadam. Para fechar as contas, faziam dívidas. Um hábito antigo, intensificado após 1999, com a criação do euro. Enquanto a economia crescia, ali e em todo o mundo, foi possível manter o desfile na Sapucaí: a arrecadação de impostos aumentava; os bancos se sentiam seguros em emprestar àqueles governos que, reconfortante circunstância, tinham todos uma mesma e respeitável moeda.

Como o euro era ouro, governos da periferia europeia conseguiam tomar dinheiro a taxas de juros quase tão baixas quanto, por exemplo, as pagas pela Alemanha, apesar de a reputação desta na Serasa e no SPC ser muito melhor que a da Grécia, Portugal, Espanha, Itália... Isso permitiu aos políticos dos países hoje em crise praticar com o dinheiro público, mesmo aquele tomado em empréstimo, bondades que lhes rendiam votos. E assim, recebendo benefícios cujo pagamento era adiado para um indeterminado futuro, viveram felizes aqueles povos.

Mas o mundo gira e a Lusitana roda. Em 2009, veio a crise das hipotecas, originária dos Estados Unidos. O “indeterminado futuro” havia chegado. Por toda parte, o crescimento econômico desapareceu. Consequentemente, as receitas de impostos caíram, porém não as despesas públicas, de modo que governos com déficit orçamentário passaram a depender ainda mais de empréstimos. Percebendo o risco de não ter seu dinheiro de volta e a oportunidade de aprofundar a facada, os bancos, com a habitual miopia, exigiram juros maiores para renovar os papagaios e fornecer novos financiamentos. O que, claro, só fez piorar as coisas.

Em prazo maior ou menor – para a Grécia, já em outubro de 2009 – ficou claro que, se contassem apenas com seus meios próprios, aqueles países não poderiam continuar honrando os compromissos assumidos. Foi quando a crise deixou de ser apenas grega para se tornar europeia e, talvez, mundial.

CONTÁGIO

Não é por altruísmo ou solidariedade internacional que a dupla Merkozy anda tão preocupada com o pequeno país cuja economia responde, apenas, por 2,6% do Produto Interno Bruto da União Europeia. (Os jornais e televisões definem PIB como “a soma de todas as riquezas produzidas num país”. Não é 100% correto, mas dá para o gasto.) Uma eventual falência grega se propagaria rapidamente por todo o continente – e para a América, também. Sobretudo porque, parodiando o que se dizia do Brasil, na década de 1980, a Grécia deve a apenas duas pessoas: Zeus e o mundo.

Deve, especialmente, a instituições financeiras francesas, alemãs, americanas, portuguesas, espanholas. Muitas delas não suportariam um calote, sem ir, elas próprias, também à falência. Os donos do dinheiro sabem disso e já estão abandonando os bancos mais expostos. No momento em que as esperanças de socorro monetário vindo da Alemanha, França, FMI, Estados Unidos, China e de quem mais quiser colaborar; (“Ei, você aí, me dá um dinheiro aí”) se extinguirem, uma corrida – ou seja, o comparecimento em massa dos depositantes e aplicadores aos bancos, tentando retirar o seu – se tornará incontrolável.

Com os bancos derrubados e o dinheiro saindo do país a galope, boa parte da economia grega deixaria de funcionar. As repercussões, em rápida sucessão, seriam fechamentos de fábricas, desemprego, depredações e pânico financeiro se alastrando para outros países igualmente fragilizados os quais, subsequentemente, também entrariam em colapso. Na esteira de tudo isso, a Europa, com certeza; e o mundo, provavelmente, cairíam em depressão econômica, estágio superior da desgraça. O euro, que já foi ouro, viraria besouro. Daí a preocupação de Merkel e Sarkozy.

QUEDA E COICE

Essa interpretação do endividamento excessivo e suas conseqüências prováveis tem sido irrestritamente acolhida pelos governos e instituições financeiras que dominam a Europa, razão suficiente para ela ser considerada suspeita. Na essência, entretanto, a explicação não agride os fatos, parece verdadeira. Mas tem um filho bastardo, a visão aritmética de como funciona a economia.

Com base nela, os alemães estão dizendo para os gregos: vocês ficaram insolventes porque seu governo gastou mais do que podia. Nós vamos lhes tirar do sufoco, para evitar que morram (“e nos levem junto”, frase omitida do discurso), mas também iremos cobrar que se emendem, elevando impostos e cortando despesas. Adeus, boa vida; adeus, salários pagos em dia, previdência social funcionando, aposentadorias garantidas. Tão achando ruim? Vão para a Etiópia.

É o fim da picada. Exigir que os países endividados reduzam seus gastos no meio de uma situação como a que eles, atualmente, vivem vai aprofundar a recessão, aumentar o desemprego, baixar as rendas, diminuir ainda mais as receitas tributárias. Piorar a crise, enfim, especialmente, na própria Grécia. Se fosse possível resolver os problemas desta forma, seria injusto. Em não o sendo, trata-se de uma estupidez.
Para os descendentes de Sócrates, Platão e Aristóteles, vai ser como juntar um coice à queda.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A escravidão e os impostos

Por Carlos Magno Lopes

“O trabalho feito por escravos, em que pese parecer ter como custo apenas o próprio sustento deles, na realidade, é o mais caro de todos. Uma pessoa que não pode adquirir nenhuma propriedade não tem nenhum outro interesse, exceto comer o máximo que puder e trabalhar o menos possível” (Adam Smith, The Wealth of Nations, 1776, Book 1, p. 365).

Foi o trabalho humano sem o retorno esperado que, em última instância, decretou o fim da escravidão, como antecipado por Adam Smith. É senso comum que as pessoas não trabalham apenas para ter os meios para subsistir. Além de comer, as pessoas querem ter seus próprios bens. Os mais ousados também precisam navegar.

O código tributário do então Império Português estabelecia um imposto mínimo de 20% sobre todas as transações realizadas em seus domínios. Caso a arrecadação não fosse suficiente para atender as necessidades da Coroa, cabia ao Imperador fixar a derrama, que correspondia à arrecadação adicional para atender as necessidades do Estado português. Foi graças à derrama que os movimentos para independência e libertação do Brasil ganharam vigor, como em Minas Gerais.

Essas considerações históricas surgem a propósito de informações dando conta de um novo recorde na arrecadação de impostos federais, estaduais e municipais no Brasil, comemorado com incontida satisfação pelos entes arrecadadores. Com efeito, em 13/02/2012, com antecedência de nove dias em relação a 2011, a arrecadação tributária conseguiu se superar, atingindo R$ 200 bilhões, no acumulado do ano. Como o lucro das empresas (á exceção dos bancos) e a renda pessoal registraram aumentos discretos no período, é de se crer que a volúpia arrecadadora do estado brasileiro é que bateu um novo recorde.

De passagem pelo Brasil, em pleno período momesco, um marciano poderia ser levado a acreditar que o aumento da arrecadação tributária se refletirá em mais e melhores serviços públicos. Findo o carnaval, com a sobriedade restaurada, o marciano será informado que a carga tributária é de cerca de 35% do PIB, bem superior à da Austrália, Estados Unidos e Coréia do Sul, por exemplo, os países que mais retornam aos cidadãos o que arrecadam em tributos (em torno de 25% do PIB). O Brasil, em ranking de 30 países, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), ocupa o honroso último lugar. O marciano, de pronto, retornorá à sua nave espacial à procura de outro planeta, pois sabe que se precisar de atendimento médico público, deverá esperar alguns meses para a consulta e mais outros meses para fazer os exames, se necessários. No Brasil, como se sabe, ainda não existem planos de saúde interplanetários.

Trabalhar para ter como retorno único a alimentação, já dizia Smith, custa caro e é ineficiente. Para nosso épico poeta Castro Alves é imoral e uma violência contra a natureza humana. São fortes e insuperáveis argumentos em qualquer sociedade minimamente civilizada. Restou à escravidão papel de destaque nas páginas mais sombrias da história. No caso do Brasil, também serviu de estopim para movimentos populares de libertação do julgo do Império português.

Trabalhar para pagar impostos sem (ou com baixo) retorno na forma de serviços públicos, custa caro ao contribuinte e é ineficiente. Atacar, indiscriminadamente, o lucro das empresas e a renda pessoal para atender às necessidades do Estado, não da sociedade, não é republicano nem democrático. Ter o Estado como sócio não é um bom negócio. Precisamos de outro Tiradentes!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A culpa é do Quiabo e da Mandioca!

Por Marcelo Eduardo A. Silva

 Que a inflação fechou o ano de 2011 exatamente (nem para mais nem para menos)  em 6,5%, impressionando o mais perfeccionista de todos os alemães, não é novidade nenhuma.  Que tamanha proeza do índice inflação tenha gerado desconfiança por parte de alguns, também não é novidade. (Não era para menos uma vez que em nossa história recente temos casos de manipulação de índices de preços. Não que isto tenha acontecido agora, mas que impressiona, impressiona). O que para mim, pelo menos foi novidade, foi verificar quem foram os vilões da inflação. E ai, de pronto, dá para ver que itens como alimentação e bebidas, vestuário, despesas pessoais e educação foram os responsáveis por puxar o índice para cima.  Olhando para as Regiões Metropolitanas nordestinas, vestuário foi o item que mais subiu em Salvador e em Recife, enquanto em Fortaleza o item despesas pessoais acabou sendo o vilão da história. Ou seja, comprar roupas em Salvador e Recife ficou mais caro, enquanto cortar o cabelo, dentre outras coisas, em Fortaleza também.



O grande vilão, na verdade ou na mentira, foi o item alimentação e bebidas, até porque este índice teve um peso maior no IPCA (23,45%) como mostra a Tabela 1. Quando olhamos os dados do ano passado ainda um pouco mais de perto, o interessante é notar que dentre os itens que mais subiram estão o quiabo e a mandioca, e em menor grau o tomate. Ah sim, tem o Piramutaba (?), que aumentou 30% no ano passado. Um absurdo em se tratando de um item muito importante de nossa dieta (O que seria de nós sem o Google e a Wikipédia!). Ou seja, olhando só para as maiores variações, o ministro Mantega, ele mesmo quase um item de nossa cesta básica,  poderia dizer que a culpa da inflação ter alcançado exatamente 6,5% no ano passado foi da dupla Quiabo e Mandioca. Na verdade, para fazer justiça, não foram o Quiabo e a Mandioca que subiram mais, mas o item passagem aérea. Talvez algum adepto da teoria da conspiração poderia dizer que estes dois malfeitores estão viajando de avião em suas investidas inflacionárias.


E 2012, o que nos espera? Sei lá, mas a julgar pelo comportamento dos preços em Janeiro, dá para ver que outras duplas ou trios surgirão em 2012. Desta vez quem saiu na frente não foi mais a dupla Quiabo e Mandioca, mas a dupla Tucunaré e Feijão!  O primeiro, mais uma vez, um item importante de nossa dieta.   Aliás, estes dois aparentemente também estão usando avião nas suas investidas inflacionárias (a passagem aérea subiu 10,6% em Janeiro de 2012!).

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sexo, drogas e rock-and-roll

Por Gustavo Maia Gomes

Três palavras sempre em moda (assim como o que elas representam): sexo, drogas e rock-and-roll.

SEXO

Os crimes de pedofilia cometidos pelos padres já custaram à Igreja Católica mais de dois bilhões de dólares em indenizações. O cálculo foi apresentado na semana passada, em reunião promovida pelo Vaticano para discutir o escândalo. Só nos Estados Unidos, cem mil pessoas se declararam vítimas de abusos semelhantes. Os casos denunciados na Irlanda, Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Brasil, Canadá, Chile, Índia, Holanda, Filipinas e Suíça, entre outros países, contam-se em centenas.

Há padres e podres.

DROGAS

O presidente Obama vai sancionar nos próximos dias a Lei de Prevenção do Contrabando com Aviões Ultraleves, para reforçar o combate ao tráfico de drogas nas fronteiras do México e Canadá com os Estados Unidos. A medida busca corrigir uma brecha legal, pois os narcotraficantes em ultraleves recebem sentenças menores do que quando são detidos em aviões ou automóveis.

Passarão a usar jumentos.

ROCK-AND- ROLL

O Itaú teve, em 2011, o maior lucro realizado por um banco na história do Brasil: R$ 14,6 bilhões, quase 10% mais do que tinha conseguido em 2010. O Bradesco lucrou R$ 11 bilhões. E assim por diante. Explica-se: este último cobra 8,81% por mês sobre os saldos descobertos do cheque especial; o campeão em lucros tasca 8,88% a cada trinta dias, 178% ao ano. Os outros seguem o mesmo caminho. Agiotagem não é mais crime.

Eles rock, nós roll.



Este artigo será publicado, simultaneamente, em http://www.blogdatametrica.com.br, http://www.econometrix.com.br e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com (14/02/2012)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Primeira medição do ano indica inflação de 0,56%

Por André Magalhães


O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou hoje o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para janeiro de 2012. A variação registrada para o primeiro mês do ano foi de 0,56% , ficando acima dos 0,50% de dezembro de 2011. Em janeiro de 2011 a taxa havia ficado em 0,83%.

Como já vem ocorrendo nos períodos recentes, a variação dos preços dos alimentos e bebidas e dos transportes explica a maior parte do aumento do indicador.

Entre as cidades nordestinas pesquisadas, Fortaleza apresentou a menor variação (0,07% - essa foi a menor variação entre todas as cidades pesquisadas) e Recife a maior (0,46%). Em Salvador o índice apresentou elevação de 0,34%.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Alerta na indústria regional

Por Carlos Magno Lopes

Dados recém-publicados pelo IBGE relatam que o ano de 2011 não trará boas recordações para a indústria nordestina. Com efeito, a indústria regional apresentou desempenho negativo da ordem de 4,7% em comparação com 2010, quando o crescimento foi de 10,5%. O pior é que sete dos onze setores pesquisados apresentaram resultados negativos, com destaque para o setor têxtil (-24,2%), refino de petróleo e álcool (-8,2%), produtos químicos (-5,6%) e calçados e artigos de couros (-13,3%). Estre os estados, o Ceará (-11,7%), foi o mais afetado, seguido da Bahia (-4,7%). Pernambuco (0,0%) permaneceu estagnado (ver tabela abaixo). Além disso, o recuo da indústria nordestina contrasta com a evolução, ainda que modesta, da indústria nacional (0,3%).



No comparativo dos resultados de 2011 em relação aos de 2010, observa-se que, em 2010, tanto a indústria nacional quanto a regional registraram crescimento significativo, 10,5% e 8,1%, respectivamente, acompanhando o excelente desempenho da economia brasileira no período. No entanto, o diferencial entre o Nordeste e o Brasil também é significativo. Isso decorre do fato de que quando a economia brasileira cresce a taxas elevadas, regra geral os setores de bens de capital e de bens de consumo duráveis também experimentam forte expansão. Contudo, a participação desses segmentos no produto da indústria nordestina é pequena, razão pela qual a aceleração do crescimento da economia nacional pouco influencia na evolução desses setores.

Por outro lado, o aquecimento da demanda externa tende a estimular o desempenho de regiões que exportam mais que o Nordeste, sobretudo o Sudeste, o Sul e o Centro-Oeste, porquanto o setor externo é inexpressivo na composição do PIB industrial nordestino. Por outro lado, quando ocorre o contrário, ou seja, contração nas vendas externas, a indústria nordestina é menos afetada que a do Brasil como um todo.

O fato é que as perspectivas da indústria nordestina em 2012 continuam incertas e dependerão, em larga expansão, do maior crescimento da economia brasileira, da economia mundial e do câmbio mais favorável.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Os professores que queremos

Por Marcelo Eduardo A. Silva

 Semana passada escrevi sobre a importância de repensarmos o modelo de gestão de nossas escolas públicas tradicionais como forma de impulsionar o ensino público neste país. Defendi a ideia de que se faz necessário mudar o modelo atual, permitindo mais autonomia e flexibilidade em todos os níveis da gestão escolar (e.g. contratação e demissão de funcionários, definição de remunerações e premiações, definição de currículo e atividades extracurriculares, etc.). Além disto, vejo com bons olhos a ideia de escolas do tipo “charter”, as quais possuem gestão privada, mas oferecem ensino público. Como disse na semana passada, citando um ditado popular, “quem engorda o boi é o olho do dono” e as evidências sugerem que uma melhor gestão pode trazer benefícios para a educação. Na minha coluna desta semana, gostaria de falar sobre outro aspecto, que tem merecido pouca ou nenhuma atenção. Melhorar a gestão, investir em infraestrutura, dar mais acesso aos avanços tecnológicos, etc. tudo isto é importante, mas o que dizer sobre um dos elementos primordiais em sala de aula: o professor. Em minha opinião temos um problema de oferta de professores. E quando me refiro a isto, tenho em mente a questão da qualidade de nossos professores de ensino fundamental e médio. Neste aspecto o problema tem duas dimensões: uma de curto prazo e outra de longo prazo.

No curto prazo, nosso problema é que a maior parte de nossos professores tem formação deficiente ou inadequada. Muitos de nossos professores tiveram eles mesmos formação ruim, frequentaram universidades e faculdades de baixa qualidade, tantos outros ensinam  matérias para os quais não tiveram formação adequada, e um percentual importante sequer tiveram formação superior. Infelizmente, em um curto espaço de tempo, não seremos capazes de mudar esta questão da qualidade de maneira satisfatória. Os esforços recentes de “formar” professores com cursos de educação superior de qualidade duvidosa não trarão o efeito desejado, apenas engrossarão a propaganda oficial de que temos mais professores com formação superior. O certo é que, no curto prazo, será difícil modificar este cenário de baixa qualidade de nossos professores, até porque nem mesmo as universidades e faculdades de formação de professores fornecem uma formação adequada.  Isto me lembra uma experiência recente que tive. Fui convocado para fazer um desses cursos de atualização didático pedagógica na UFPE e a única conclusão que cheguei naquele curso foi de ter perdido um dia de trabalho útil para ficar discutindo um bando de teorias que em nada melhorariam a minha capacidade de dar melhores aulas. Ou seja, em resumo, nossas faculdades de pedagogia gastam muito tempo discutindo filosofia da educação, teorias sobre nada, e na prática pouco ensinam como dar melhores aulas e ser mais efetivo em sala de aula. 

Por outro lado, no longo prazo, o problema é que muitos daqueles que escolhem a carreira de professor, com as devidas exceções, não estão entre nossos melhores “cérebros”. Infelizmente, outras carreiras, particularmente aquelas ligadas ao setor público atraem mais os nossos jovens. E isto por razões óbvias: os salários, benefícios e condições de trabalho são substancialmente melhores. Basta comparar um salário numa dessas tantas carreiras no setor público com os salários de um professor, e isto mesmo entre os professores das universidades federais. Parece piada, mas, por exemplo, um salário de entrada na Receita Federal para alguém que tem curso superior é aproximadamente 3,7 vezes maior  do que o salário de um professor com doutorado no ensino básico, técnico e tecnológico no serviço público federal. Se fosse comparar com os salários dos professores dos estados e municípios, o resultado seria ainda mais desanimador. Ou seja, para o Brasil mais vale um burocrata a carimbar papel do que um professor com PhD em sala de aula. E é ai que me parece estar o ponto chave da questão. Não conseguiremos formar melhores alunos, sem que a qualidade dos nossos professores melhore substancialmente. E para isto não tem solução fácil, ou os salários melhoram, ou continuaremos com o mesmo quadro atual. Na propaganda oficial, o Brasil nunca esteve tão bem, na realidade, o Brasil continua indo mal, como mostra o resultado do PISA onde o Brasil ficou na 54º  posição num ranking de 65 países.