Por: Fernando Dias
Tudo que se fala sobre cultura cria, via de regra, debates apaixonados entre as partes envolvidas onde cada uma tenta enaltecer os aspectos que lhe são mais peculiares além, é claro, de engrandecer o papel da mesma no cenário regional e/ou nacional. Mesmo quando se circunscreve a discussão ao aspecto econômico esta situação em nada muda. Mesmo porque, em se tratando de Brasil, não há, em verdade, números precisos sobre a economia da cultura. No Nordeste, por exemplo, muito se fala sobre a importância e a magnitude das duas manifestações mais conhecidas de sua cultura, os gêneros musicais forró e axé, embora existam poucos números disponíveis e que não permitem mais que uma nota sobre ambos.
Do ponto de vista econômico dois eventos marcam o calendário cultural nordestino, o Carnaval e as Festas Juninas, e ambos geram um fluxo de milhares de visitantes nas localidades onde são festejados. Relacionados a estes eventos, os gêneros hoje mais populares no Nordeste se propagaram pelo Brasil e se tornaram as faces mais visíveis das manifestações culturais nordestinas, o forró e o axé. É claro que em essência nem o Carnaval nem os festejos juninos são originalmente nordestinos, mas o fato é que de ambos se originaram ritmos musicais próprios, de grande penetração na indústria cultural, e que inclusive levam a disputas dentro da região sobre a predominância de cada um. Em verdade, se recorrermos aos dados da última PNAD/IBGE disponível, de 2009, observa-se que o número de músicos de cantores populares no Nordeste equivale ao do Sudeste, destarte a enorme diferença populacional. Infelizmente, para eles, a renda média deste grupo ainda é a menor do Brasil.

Dentro da própria região existem também diferenças significativas. A falta de uma metodologia para o PIB cultural, que ainda está em estudo pelo Ministério da Cultura, leva a que apenas possa tecer considerações sobre a dinâmica regional do mesmo. Em termos de vendagem tem-se que os artistas de maior sucesso são os do gênero axé, que é concentrado na Bahia. Recorrendo-se de novo à PNAD observa-se também que é na Bahia que está a maioria dos artistas, bem como o salário médio dos mesmos é superior ao dos seus colegas em Pernambuco e no Ceará. Isto, contudo, apenas sugere que a Bahia é o principal expoente da indústria cultural nordestina.

As discordâncias sobre a real importância da cada gênero nas manifestações culturais assumem, por vezes, contornos políticos como, por exemplo, leis que proíbem as execuções de gêneros musicais de outros estados mesmo quando relacionados ao mesmo evento. Por trás destas estão políticas, quase sempre descoordenadas, de promoção da indústria cultural local que se antepõem mesmo ao fato da cultura ser hoje globalizada. Seria algo sem sentido não fosse o tamanho do bolo em disputa, algo como 7% do PIB nas avaliações preliminares do Ministério da Cultura, o que daria algo em torno de R$ 30 bilhões para o Nordeste como um todo.
Os dados da PNAD 2009 evidenciam que a indústria cultural é vista como opção relevante para os nordestinos mais que em qualquer outra região do país, mas eles também mostram que, em média, isto não vem se mostrando compensador frente às demais regiões. Mesmo dentro da região a renda média dos artistas é bastante díspar, sendo 20% maior na Bahia e no Ceará que em Pernambuco, por exemplo. Em linhas gerais pode-se afirmar que o axé tem uma maior aceitação fora do Nordeste que o forró, e também que nenhum dos dois gêneros têm penetração fora do mercado nacional. Até que ponto estes gêneros podem auxiliar no desenvolvimento de um setor competitivo na região permanece uma incógnita. É similar ao futebol, sabe-se que grandes somas estão envolvidas, mas os caminhos que elas percorrem são misteriosos.
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