Por Marcelo Eduardo A. Silva
Na minha coluna desta semana gostaria de falar um pouco sobre a nossa cidade e sobre o progresso que se desenha. Embora em um tom nostálgico, tenho a esperança de que talvez possamos recuperar o tempo (e o espaço) perdido. Lembro que quando criança costuma vir com frequência ao centro do Recife com meus avós e como isto exercia um fascínio sobre mim. Eu simplesmente ficava fascinado com o centro da minha cidade com suas pontes, seus prédios, suas praças, suas árvores, seu rio imponente, seus mangues, seus casarões, a arquitetura de nossas igrejas, o mar, o porto. Tudo aquilo me deixava maravilhado e com vontade de voltar logo. Ao andar pelas ruas do centro hoje fica a impressão de que a ação do tempo, a ocupação desordenada, o vandalismo, e o completo abandono das administrações públicas foram cruéis com nossa cidade. Não mais fico com vontade de voltar logo, mas de não mais voltar. O que se vê pelas ruas é um quadro de completo abandono, de lixo, de prédios abandonados, de mendigos, de ambulantes que ocupam todo o espaço disponível nas calçadas, de marginalidade, de praças depredadas, abandonadas. Diante deste quadro não é de se admirar que todos nós tenhamos abandonado o centro de nossa cidade. Preferimos lotar os nossos famigerados “shoppings centers”, enclausurados, “protegidos” contra a insegurança de nossas ruas, no conforto do ar condicionado, na facilidade de se fazer compras, de se estacionar o carro, de “andar” pelas ruas dos shoppings, longe do lixo e do abandono que se transformou o nosso centro. Sinceramente, confesso também que abandonei o centro de nossa cidade, muito embora ele ainda exerça um fascínio sobre mim. O Recife é uma cidade linda, que ainda resiste, só não sei por quanto tempo ainda. Às vezes a impressão que fica é que se trata de um quadro irrecuperável. Para a nossa sorte, exemplos não faltam de que ainda é possível recuperar o tempo e os espaços perdidos (basta ver o exemplo de Londres e de outras cidades), ainda é possível recuperar a vida na cidade, mas para que isto aconteça se faz necessário reinventar (e ocupar) o centro. A reinvenção do centro passa primeiramente pela ação do poder público na recuperação dos espaços públicos, na retomada dos espaços que antes nos pertenciam e agora foram entregues ao completo abandono e à ocupação desordenada. Passa pela recuperação de nossas praças, de nossas ruas, por um projeto de arborização, de controle do trânsito (eliminação de automóveis?), pela atração de novos empreendimentos de negócios, de entretenimento. Passa por trazer de volta as famílias, as empresas, os restaurantes e as opções de lazer. Passa por investimentos em segurança, em transporte público, na recuperação de prédios, pontes e praças. Precisamos devolver nossa cidade àqueles a quem de fato ela pertence: aos Recifenses e aos nossos visitantes. É preciso redescobrir o centro, reinventá-lo. Enquanto muitos (incluindo o prefeito de nossa cidade) veem como progresso a construção de novos shoppings centers e/ou pela ampliação dos já existentes, eu vejo isto como um sinal de que estamos perdendo a batalha pela nossa história, pela vida no nosso centro. A vida das cidades não está nos shoppings, mas nas suas ruas e praças, nos seus prédios históricos, nos seus museus. Basta ir à Paris, Barcelona, Londres, Washington, Nova Iorque. A vida nestas cidades circula nas ruas, nas praças, não nos shoppings centers. Ninguém vai à Nova Iorque para ir ao shopping, mas para as suas ruas, para seus restaurantes, para as lojas que ficam nas ruas, para o central park, para os inúmeros museus da cidade. Ainda é possível ficar fascinado com o centro do Recife, com as nossas pontes, com o rio, com o mangue, com a nossa história, com a nossa rica arquitetura, com nossas igrejas, com nossas praças. O Recife ainda resiste bravamente, só não sei até quando. À semelhança do movimento “occupy wall street”, nós recifenses precisamos criar um novo movimento “occupy downtown” (ocupar o centro) enquanto ainda há tempo. A sugestão está dada.
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