Por Marcelo Eduardo A. Silva
A revista inglesa The Economist desta semana traz uma matéria interessante sobre as medidas anunciadas pelo governo brasileiro no fim do ano passado (e.g. redução de impostos para indústrias intensivas em mão de obra, como a indústria têxtil e de calçados, e o aumento no IPI para carros importados) na tentativa de “proteger” a competitividade da indústria nacional contra a concorrência externa. (O engraçado é que ninguém se pergunta sobre os impactos destas medidas sobre os consumidores). A revista foca particularmente no crescimento do comércio entre Brasil e China, que se tornou o nosso maior parceiro comercial. Embora no geral o Brasil continue a apresentar saldo positivo na balança comercial com os chineses, o mesmo não pode ser dito quando analisamos o comportamento das exportações e importações de bens manufaturados. O que os dados mostram é que enquanto o Brasil apresenta saldo positivo na balança comercial de produtos básicos para os chineses, estes apresentam saldo positivo na balança comercial de produtos manufaturados. Ou seja, nós exportamos o minério de ferro para eles e compramos de volta os automóveis e todas as outras bugigangas chinesas. Qual o problema disto?
Bem, o problema é que se este comportamento for algo generalizado e se mostrar como uma tendência de longo prazo isto pode significar indícios de que talvez o Brasil esteja sofrendo da chamada doença holandesa. Esta “doença” é característica de economias cujo setor de bens primários experimenta uma expansão em termos de produção e exportações levando a um enfraquecimento de outros setores da economia, em particular, do setor de manufaturados (o que potencialmente levaria a uma desindustrialização do país). Seria este o nosso caso? A julgar pelo comércio entre Brasil e China esta é, pelo menos, uma possibilidade.
O governo tem reagido a este cenário com medidas protecionistas de curto prazo, a exemplo do aumento do IPI nos automóveis importados com menos de 65% de componente nacional, cujo efeito tenderá a desaparecer ao longo do tempo. Melhor seria se a estas medidas fossem somadas medidas mais estruturais que de fato afetassem a nossa produtividade. Nossa economia sofre de problemas mais sérios, problemas que precisam entrar no foco de nossas discussões e mais importantemente de nossas ações. A nossa indústria e todos os demais setores sofrem com um sistema tributário nefasto, com uma infraestrutura de transportes de baixa qualidade, com excessiva burocracia, com escassos investimentos em ciência e tecnologia e inovação, e com uma mão de obra com baixa qualificação. Até aqui, nada de novo, tudo isto são coisas que já sabemos. O que falta é traduzir este diagnóstico em ações práticas. E para mim é ai que reside nosso problema fundamental. Nossas discussões sobre estas coisas (i.e. comércio exterior, relações bilaterais, reformas estruturais, investimentos e provisão de infraestrutura de telecomunicações e transporte, etc.) são excessivamente ideológicas, ao invés de pragmáticas. São guiadas por visões maniqueístas do mundo, onde caberiam apenas em lugares “progressistas” como Cuba ou Coréia do Norte. Como disse certa vez Roberto Campos: "com o atraso das reformas estruturais e das privatizações, o Brasil fica longe de realizar seu potencial. Poderia tornar-se um tigre e se comporta como uma anta."
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