Por Fernando Dias
Uma combinação de coincidências, idiossincrasias e conflitos de valores vem consolidando algo que seria impensável alguns anos atrás: Pernambuco e Bahia estão ajudando o Rio de Janeiro a ter o melhor carnaval do mundo. Não que o do Rio já seja não reconhecido (internacionalmente) como a referência do carnaval do brasileiro, mas internamente sempre houve grande disputa pelo carnaval de rua, pela festa popular como deve ser.
Mas isto vem mudando, e este ano esta mudança parece assumir uma visibilidade maior. Já faz algum tempo que o caráter popular da festa vem sendo posto em cheque. Em Recife (PE), por exemplo, o fim (Decretado) de um dos maiores carnavais fora de época do país (Recifolia) foi muito comemorado pelos setores pró-ordem da cidade. Seguiu-se o disciplinamento do carnaval em Olinda (PE) e em Salvado (BA), e mais recentemente o MPPE “recomendou” que os maiores blocos de Recife nas prévias e pós-carnaval realizassem os festejos em lugar fechado.
Bloco que não desfila? Como assim? Isto mesmo, os pernambucanos inventaram o bloco indoor, onde você paga para entrar em um espaço fechado e fica circulando pela pista fantasiado. Coincidentemente, esta semana a Polícia Militar da Bahia resolveu entrar em greve para aproveitar o momento e ganhar poder de barganha. Resultado, com um saldo de 70 assassinados desde o dia 31 de janeiro (117% a mais que no mesmo período de 2011), as prévias carnavalescas estão sendo canceladas uma após a outra.
Inspirados nos colegas cearenses, que deflagraram greve junto das festas de ano novo, os PM’s baianos usaram o período de maior concentração de pessoas no estado para colocar o governo contra a parede. Mas para não dizerem que estou sendo injusto com a corporação, é esta a interpretação que os sindicatos vêm apresentando da Lei que permite as greves em todos os setores que podem afetar o bem-estar da população. Não vai demorar até que os cirurgiões abram negociações com os hospitais com o peito, do paciente, aberto. Coisas do Brasil.
Enquanto isso, alheios a estes problemas, os cariocas comemoram. Eles já tiveram a experiência fracassada de tentar manter o carnaval somente no Sambódromo e em bailes, deixando os blocos de lado. Mas os blocos são a essência do carnaval, e lá eles foram revitalizados. É claro que disciplinar dá muito mais trabalho que proibir ou trancafiar, mas os resultados compensam. Tanto que desde o ano passado o Cordão do Bola Preta (RJ) passou a se autoproclamar o maior bloco de carnaval do mundo, tomando o título que seria do Galo da Madrugada (PE). Se depender da disposição “disciplinadora” dos pernambucanos e da “estratégia” de negociação dos baianos, não vai ser nenhuma surpresa se o Rio se tornar o melhor carnaval do mundo.
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