quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

No vacation, my friend!

Por Marcelo Eduardo A. Silva

 O IBGE divulgou ontem os resultados da Pesquisa de Serviços de Hospedagem (PSH 2011), realizada em parceria com o Ministério do Turismo, com o objetivo de conhecer a infraestrutura de hospedagem no país. Dentre as diversas informações que foram divulgadas, uma em particular me deixou curioso. Analisando o número de leitos disponíveis, o que se observa é que dentre as capitais nordestinas que receberão a Copa de 2014, Recife é a cidade com menor número de leitos, 10.418 leitos, bem abaixo da média nacional e da média nordestina. Natal, a cidade que aparece logo a frente de Recife, possui 19.745 leitos, ou seja, aproximadamente quase o dobro de Recife. A cidade nordestina com maior número de leitos é Salvador com 22 mil leitos aproximadamente.

Olhando para estes números fiquei pensando, lembrando uma das frases favoritas dos taxistas, imagina na copa? Sinceramente, gostaria de nem imaginar, mas imaginando mesmo assim, o que os dados mostram é que quando comparamos o número de leitos disponíveis em cada cidade nordestina com a capacidade projetada de seus estádios, dá para perceber que a oferta atual não será capaz de atender eficazmente a demanda por leitos que surgirá durante o evento, mesmo assumindo que parte das pessoas que atenderá aos jogos reside nas proximidades. Some-se a isto, o fato de que os leitos disponíveis atenderão não apenas os visitantes da Copa, mas também outras demandas mais usuais, como turistas de lazer e de negócios, etc.

Para as cidades nordestinas, que esperam receber um maior número de visitantes durante a Copa, fica o desafio de fazer o dever de casa seja no quesito meios de hospedagem seja em tantos outros quesitos, como, por exemplo, na questão da mobilidade urbana, infraestrutura de telefonia, restaurantes, etc. Caso a situação não mude, a frase mais famosa a ser ouvida dos taxistas não será mais “imagina na copa”, e sim: “no vacation, my friend!!!”

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Quem faz o quê no Facebook?

Gustavo Maia Gomes

A Deloitte, empresa internacional de consultoria, calcula que, na União Europeia, o Facebook (FB, para os íntimos) e as empresas dele dependentes respondem por 232 mil empregos e por 15,3 bilhões de euros (R$ 35 bilhões) em valor anualmente produzido. Nos Estados Unidos, a Universidade de Maryland estima que a rede social criou 182 mil empregos e faz pagamentos anuais de 12,2 bilhões de dólares (R$ 21,6 bilhões) em salários. Para um serviço que ainda não tem dez anos de existência, são números impressionantes.

Todos concordam quanto à importância do Facebook, mas sua natureza ainda é mal compreendida. Para saber como, exatamente, ele impacta a sociedade e a economia, deveríamos começar conhecendo melhor os usuários do serviço, os grupos em que se dividem, o que fazem na rede social e o que dela esperam. Estatísticas demográficas, sociais e econômicas a este respeito começam a ser produzidas e estão disponíveis na Internet. Mas encontrei pouca informação sobre o que os usuários fazem e o que esperam receber ao digitar comentários, curtir ou comentar posts. Proponho, então, lançar algumas hipóteses a partir, sobretudo, de minha experiência.

Sendo eu um recém-chegado a esse mundo, a classificação funcional que apresento a seguir, assim como a descrição das características principais de cada grupo de usuários, é extremamente preliminar. Ficarei grato aos leitores que sugerirem aperfeiçoamentos.

1.    Auto-ajuda

Uma parte das pessoas usa o Facebook para publicar pensamentos, máximas e palavras de ordem, quase sempre, alheios. A oferta de frases feitas já é abundante; vários sites na internet produzem material dessa natureza, frequentemente, adornado com belas ilustrações ou fotos. Proponho chamar este o “Grupo da Auto-ajuda”.

Seus integrantes não creem que irão mudar o mundo, mas, por via das dúvidas, dão sua contribuição. Mais importante é que eles se consideram recompensados ao colher comentários (sempre numerosos e, invariavelmente, favoráveis) de seus “amigos”. Podem, aos poucos, firmar uma reputação de pessoas sábias, responsáveis, prudentes, inteligentes, num círculo muito maior do que seriam capazes de formar em contatos diretos, não virtuais.

2.    Ka-ka-ka

A turma do Ka-ka-ka parece ser, em regra, composta por adolescentes. Eles usam o FB como um meio de comunicação, mas se conhecem e interagem também fora da internet. Geralmente, os assuntos são mundanos e se referem aos interesses e aspirações do dia-a-dia dessas pessoas. A recompensa pela participação na rede está neste dar e receber informações valiosas de amigos e “amigos”.

O grupo criou um dialeto próprio, com novas palavras [kkk, uuu, hehehe...] e símbolos especiais [ (=: e outros]. Mesmo quando os participantes da turma têm educação formal, ela pouco influencia sua maneira de falar. Não há mais pontuação, concordância ou emprego adequado de maiúsculas e minúsculas. É a facilidade de digitação que determina a linguagem: para escrever uuuuuuuuuuuu, por exemplo, basta apertar uma tecla e mantê-la pressionada. Machado de Assis não poderia querer mais.

3.    Fórum de intelectuais

Algumas pessoas (claramente, sou uma delas) usam o Facebook como um fórum de intelectuais. Postam artigos e peças de ficção literária, fazem críticas cinematográficas, expressam opiniões políticas, leem jornais, revistas e blogs selecionados. Já fazíamos isso antes via jornais, revistas, diários íntimos, etc, mas de forma menos eficiente. Hoje, mesmo quando publicamos alguma coisa em mídias tradicionais, achamos importante oferecer um link na rede social, por onde é mais fácil e provável receber comentários, aferir repercussões.

Em última análise, temos motivações semelhantes às do grupo da auto-ajuda: adoramos sustentar uma conversa que julgamos inteligente com pessoas a quem respeitamos e, sobretudo, nos delicia receber comentários favoráveis às nossas postagens. Infelizmente, com frequência, somos considerados animais estranhos, ou indivíduos pernósticos, pelos que integram os demais grupos. Uuu, kkk.

4.    Colunáveis

Há aqueles – talvez, a maioria dos usuários do Facebook – que publicam regularmente sua vida pessoal e familiar, documentada em infindável quantidade de fotos. O serviço é gratuito, aberto a todos, e as imagens são reproduzidas em alta qualidade. Como esta democratização de oportunidades só passou a existir muito recentemente, é natural que ainda estejamos tentando entender o que ela significa.

Uma total renúncia à privacidade? De certa forma, sim. Mas, será algo novo? Colunas sociais em jornais sempre fizeram isso, publicar fotos e se imiscuir na vida privada dos notáveis. Só que nem todo mundo podia sair nas colunas. Agora, pode. A recompensa obtida pelos integrantes do grupo é que, de repente, todos eles se tornaram “colunáveis”. Não é que, lamentavelmente, as pessoas tenham perdido a privacidade, mas sim que, felizmente, isso aconteceu.

5.    Noticiosos

Jornalistas comunicam seus blogs pessoais com o Facebook; jornais e revistas tradicionalmente editadas em papel, também. Em conjunto, podem ser considerados personagens no mundo das redes sociais: os noticiosos. Os jornalistas, considerados individualmente, em particular, interagem muito com os intelectuais. E vice-versa.

Para quem vive de ser lido, o Facebook proporciona uma oportunidade preciosa, imperdível. A recompensa desse povo é esta: poder apresentar a si mesmos, aos seus chefes e eventuais patrocinadores atestados de que estão sendo notados pelo resto da humanidade. E com isso, ganhar melhor salário ou atrair mais anunciantes para seu blog pessoal.

6.    Políticos e empresas

Também há grupos de políticos e de empresas. Estão juntos porque ambos vivem da propaganda. Dos políticos, alguns noticiam cada passo que dão (“agora estou no mercado, ouvindo o povo”...), outros informam o estado atual de suas ideias (“sempre fui a favor de não ser contra nada”...) Um deles, de projeção nacional, foi pioneiro em outra rede, o Twitter, que bem poderia ser chamada a reinvenção do telégrafo. Se tudo isso der votos, melhor; se não, pelo menos, é de graça.

Aparentemente, é uma redundância, pois essas coisas já eram feitas nos sites tradicionais, mas as empresas descobriram as redes sociais como mais um canal de propaganda e comunicação com seus clientes. Como podem montar suas páginas gratuitamente no Facebook, está ainda mais explicada sua presença ali.

7.    Interesses específicos

As redes sociais também têm sido utilizadas por grupos com interesses específicos: “Adoro cachaça”, “Fanzocas do Justin Bieber”... Os exemplos mais impactantes foram proporcionados pela chamada Primavera Árabe (que derrubou vários ditadores, ora sendo substituídos por outros), mas houve muitos casos anteriores de grandes mobilizações organizadas e coordenadas via Facebook.

O artigo de Tom Hayes, citado nas referências, chama a atenção para uma das muitas e extraordinárias implicações dessa circunstância inteiramente nova: os sindicatos de trabalhadores podem se tornar obsoletos. Já é muito mais prático e eficiente organizar greves via redes sociais do que pelos meios clássicos – e os líderes produzidos pelo Facebook não são, necessariamente, os mesmos que ganhariam as eleições sindicais.

8.    Uma nota final

Muitos outros grupos devem existir. Espero que os leitores me ajudem a identificá-los. Afinal, mobilizar trabalho alheio a custo zero é uma das grandes possibilidades do Facebook. Supera os sonhos dos mais ardentes escravocratas.
Escravos precisam ser alimentados: “amigos”, não.


REFERÊNCIAS (Para quem quiser ir às fontes)

Delloite, “Measuring Facebook´s economic impact in Europe”, January 2012, Link: http://www.deloitte.com/view/en_GB/uk/industries/tmt/media-industry/df1889a865f05310VgnVCM2000001b56f00aRCRD.htm


Center for Digital Innovation, Technology and Strategy (University of Maryland), “The Facebook App Economy”, September 2011. Link: http://www.rhsmith.umd.edu/digits/pdfs_docs/research/2011/AppEconomyImpact091911.pdf
 

Tom Hayes, “Will Facebook Replace Labor Unions?” February 2011. Link: http://www.huffingtonpost.com/tom-hayes/will-facebook-replace-lab_b_828900.html
 

Facebook Statistics by country. Link: http://www.socialbakers.com/facebook-statistics/
Brazil Facebook Statistics. Link: http://www.socialbakers.com/facebook-statistics/brazil

Este artigo será publicado, simultaneamente, em http://www.blogdatametrica.com.br, http://www.econometrix.com.br e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com (28/02/2012)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Nordeste avança na convergência salarial

Por: Fernando Dias

A convergência da renda regional é um dos pontos cruciais no desenvolvimento das economias periféricas. Este ponto é mais visível principalmente nas grandes economias periféricas em desenvolvimento, os chamados BRICS, cuja expansão se deve em geral a políticas centradas em aproveitar vantagens comparativas que são usualmente concentradas em termos geográficos. O Brasil não é exceção, muito pelo contrário, apresentando um cenário onde a Região outrora mais rica (o Nordeste) se tornou ao longo do processo de desenvolvimento nacional a que concentra os principais bolsões de pobreza.

Ao longo dos últimos séculos a inversão de posição entre o Nordeste e o Sudeste tornou esta primeira uma Região periférica dentro do contexto nacional, e já faz décadas que se utilizam políticas públicas no sentido de recuperar uma trajetória de convergência da renda ou, ao menos, dos salários. Visto que o Nordeste vem se mostrando ao longo dos últimos anos um bastião do crescimento nacional, cabe considerar se a convergência ao menos dos salários médios é uma realidade alcançável ainda na vida dos atuais trabalhadores (a da renda, se alcançável, é coisa para gerações).

Utilizando os dados mais recentes na Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE, temos que alguns elementos estilizados quando a remuneração do trabalho no Brasil são apoiados pelos dados e, também, que há sinais de convergência. O primeiro quadro a seguir sugere que nas principais áreas metropolitanas o salário médio real atualmente convergiu para três patamares: um mais alto para Rio de Janeiro e São Paulo, um segundo intermediário para as demais áreas menos Recife, que se isola sem apresentar tendência de crescimento nos últimos anos. Em média, a distância entre todas as áreas e São Paulo diminuiu consideravelmente ao longo dos últimos 10 anos.




Um segundo ponto importante que já pode ser claramente visualizado na série é que o número de horas de trabalho vem claramente diminuindo, embora estranhamente de forma mais acelerada nas regiões de renda mais baixa (Recife e Salvador). Permanece verdade que Paulistas e Cariocas apresentam mais horas de trabalho que os Nordestinos, mas o quadro seguinte mostra aquilo que é mais importante: a diferença na remuneração por hora vem diminuindo acentuadamente.




A convergência do salário por hora é claramente mais forte que a observada para o salário total, embora ainda pode se arguir que também há três grupos e que Recife fica para trás. O mais importante desta série é o comportamento das demais áreas em relação a São Paulo que, apesar de apresentar crescimento no salário real por hora, vem sendo alcançado pelas demais áreas.




Não há elementos na PME que permitam avaliar os motivos pelos quais se observa convergência, nem por quer Recife vem ficando para trás quando se esperava o contrário dada a velocidade com que a taxa de desemprego caiu na Região. Talvez a redução no desemprego tenha se dado em funções que na média tem menor remuneração, derrubando assim a estatística geral. Isto é um tema para um outro estudo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Produção industrial de Pernambuco apresenta recuo em dezembro

Por André Magalhães

Foram divulgados os números da Pesquisa CNI/FIEPE que avaliam o desempenho da indústria de Pernambuco, durante o mês de dezembro de 2011. Nesse momento em que todos observam o crescimento da economia do Estado, a indústria dá sinais de enfraquecimento nos últimos meses do ano de 2011. Dezembro representou o segundo mês consecutivo de queda nas vendas em oito dos 10 segmentos pesquisados.

Na comparação com novembro a queda nas vendas foi de 7,6%. No ano, a redução foi de 17,4%. A queda foi ainda maior em relação ao mês de dezembro de 2010 (-6,2%).

Contribuíram para essa redução, a significativa queda no setor produtos têxteis (-4,2%) e confecções, artigos do vestuário e acessórios (-41,7%). Esses setores enfrentaram uma forte queda da demanda interna, muito provavelmente devido à concorrência dos produtos chineses que chegam ao estado com preços muito competitivos.  A pesquisa completa pode ser encontrada no site www.fiepe.org.br.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Euro era ouro. Virou besouro

Gustavo Maia Gomes
Grécia atolada em dívidas, o euro prestes a desmanchar, desemprego crescente, economias declinantes, depredações em Atenas, pavor de uma crise bancária, repetidos deixa-cum-nói de Merkel e Sarkozy... Nos jornais, 1.234 notícias sobre a crise; na internet, 4.321 outras. Leio todas. Será que entendi alguma coisa? Inseguro, divido com o leitor o estado atual de minha ignorância.
RAÍZES

A interpretação mais difundida da crise é, em linhas gerais, a seguinte: Grécia, Portugal, Espanha e Itália passaram anos gastando além do que arrecadam. Para fechar as contas, faziam dívidas. Um hábito antigo, intensificado após 1999, com a criação do euro. Enquanto a economia crescia, ali e em todo o mundo, foi possível manter o desfile na Sapucaí: a arrecadação de impostos aumentava; os bancos se sentiam seguros em emprestar àqueles governos que, reconfortante circunstância, tinham todos uma mesma e respeitável moeda.

Como o euro era ouro, governos da periferia europeia conseguiam tomar dinheiro a taxas de juros quase tão baixas quanto, por exemplo, as pagas pela Alemanha, apesar de a reputação desta na Serasa e no SPC ser muito melhor que a da Grécia, Portugal, Espanha, Itália... Isso permitiu aos políticos dos países hoje em crise praticar com o dinheiro público, mesmo aquele tomado em empréstimo, bondades que lhes rendiam votos. E assim, recebendo benefícios cujo pagamento era adiado para um indeterminado futuro, viveram felizes aqueles povos.

Mas o mundo gira e a Lusitana roda. Em 2009, veio a crise das hipotecas, originária dos Estados Unidos. O “indeterminado futuro” havia chegado. Por toda parte, o crescimento econômico desapareceu. Consequentemente, as receitas de impostos caíram, porém não as despesas públicas, de modo que governos com déficit orçamentário passaram a depender ainda mais de empréstimos. Percebendo o risco de não ter seu dinheiro de volta e a oportunidade de aprofundar a facada, os bancos, com a habitual miopia, exigiram juros maiores para renovar os papagaios e fornecer novos financiamentos. O que, claro, só fez piorar as coisas.

Em prazo maior ou menor – para a Grécia, já em outubro de 2009 – ficou claro que, se contassem apenas com seus meios próprios, aqueles países não poderiam continuar honrando os compromissos assumidos. Foi quando a crise deixou de ser apenas grega para se tornar europeia e, talvez, mundial.

CONTÁGIO

Não é por altruísmo ou solidariedade internacional que a dupla Merkozy anda tão preocupada com o pequeno país cuja economia responde, apenas, por 2,6% do Produto Interno Bruto da União Europeia. (Os jornais e televisões definem PIB como “a soma de todas as riquezas produzidas num país”. Não é 100% correto, mas dá para o gasto.) Uma eventual falência grega se propagaria rapidamente por todo o continente – e para a América, também. Sobretudo porque, parodiando o que se dizia do Brasil, na década de 1980, a Grécia deve a apenas duas pessoas: Zeus e o mundo.

Deve, especialmente, a instituições financeiras francesas, alemãs, americanas, portuguesas, espanholas. Muitas delas não suportariam um calote, sem ir, elas próprias, também à falência. Os donos do dinheiro sabem disso e já estão abandonando os bancos mais expostos. No momento em que as esperanças de socorro monetário vindo da Alemanha, França, FMI, Estados Unidos, China e de quem mais quiser colaborar; (“Ei, você aí, me dá um dinheiro aí”) se extinguirem, uma corrida – ou seja, o comparecimento em massa dos depositantes e aplicadores aos bancos, tentando retirar o seu – se tornará incontrolável.

Com os bancos derrubados e o dinheiro saindo do país a galope, boa parte da economia grega deixaria de funcionar. As repercussões, em rápida sucessão, seriam fechamentos de fábricas, desemprego, depredações e pânico financeiro se alastrando para outros países igualmente fragilizados os quais, subsequentemente, também entrariam em colapso. Na esteira de tudo isso, a Europa, com certeza; e o mundo, provavelmente, cairíam em depressão econômica, estágio superior da desgraça. O euro, que já foi ouro, viraria besouro. Daí a preocupação de Merkel e Sarkozy.

QUEDA E COICE

Essa interpretação do endividamento excessivo e suas conseqüências prováveis tem sido irrestritamente acolhida pelos governos e instituições financeiras que dominam a Europa, razão suficiente para ela ser considerada suspeita. Na essência, entretanto, a explicação não agride os fatos, parece verdadeira. Mas tem um filho bastardo, a visão aritmética de como funciona a economia.

Com base nela, os alemães estão dizendo para os gregos: vocês ficaram insolventes porque seu governo gastou mais do que podia. Nós vamos lhes tirar do sufoco, para evitar que morram (“e nos levem junto”, frase omitida do discurso), mas também iremos cobrar que se emendem, elevando impostos e cortando despesas. Adeus, boa vida; adeus, salários pagos em dia, previdência social funcionando, aposentadorias garantidas. Tão achando ruim? Vão para a Etiópia.

É o fim da picada. Exigir que os países endividados reduzam seus gastos no meio de uma situação como a que eles, atualmente, vivem vai aprofundar a recessão, aumentar o desemprego, baixar as rendas, diminuir ainda mais as receitas tributárias. Piorar a crise, enfim, especialmente, na própria Grécia. Se fosse possível resolver os problemas desta forma, seria injusto. Em não o sendo, trata-se de uma estupidez.
Para os descendentes de Sócrates, Platão e Aristóteles, vai ser como juntar um coice à queda.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A escravidão e os impostos

Por Carlos Magno Lopes

“O trabalho feito por escravos, em que pese parecer ter como custo apenas o próprio sustento deles, na realidade, é o mais caro de todos. Uma pessoa que não pode adquirir nenhuma propriedade não tem nenhum outro interesse, exceto comer o máximo que puder e trabalhar o menos possível” (Adam Smith, The Wealth of Nations, 1776, Book 1, p. 365).

Foi o trabalho humano sem o retorno esperado que, em última instância, decretou o fim da escravidão, como antecipado por Adam Smith. É senso comum que as pessoas não trabalham apenas para ter os meios para subsistir. Além de comer, as pessoas querem ter seus próprios bens. Os mais ousados também precisam navegar.

O código tributário do então Império Português estabelecia um imposto mínimo de 20% sobre todas as transações realizadas em seus domínios. Caso a arrecadação não fosse suficiente para atender as necessidades da Coroa, cabia ao Imperador fixar a derrama, que correspondia à arrecadação adicional para atender as necessidades do Estado português. Foi graças à derrama que os movimentos para independência e libertação do Brasil ganharam vigor, como em Minas Gerais.

Essas considerações históricas surgem a propósito de informações dando conta de um novo recorde na arrecadação de impostos federais, estaduais e municipais no Brasil, comemorado com incontida satisfação pelos entes arrecadadores. Com efeito, em 13/02/2012, com antecedência de nove dias em relação a 2011, a arrecadação tributária conseguiu se superar, atingindo R$ 200 bilhões, no acumulado do ano. Como o lucro das empresas (á exceção dos bancos) e a renda pessoal registraram aumentos discretos no período, é de se crer que a volúpia arrecadadora do estado brasileiro é que bateu um novo recorde.

De passagem pelo Brasil, em pleno período momesco, um marciano poderia ser levado a acreditar que o aumento da arrecadação tributária se refletirá em mais e melhores serviços públicos. Findo o carnaval, com a sobriedade restaurada, o marciano será informado que a carga tributária é de cerca de 35% do PIB, bem superior à da Austrália, Estados Unidos e Coréia do Sul, por exemplo, os países que mais retornam aos cidadãos o que arrecadam em tributos (em torno de 25% do PIB). O Brasil, em ranking de 30 países, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), ocupa o honroso último lugar. O marciano, de pronto, retornorá à sua nave espacial à procura de outro planeta, pois sabe que se precisar de atendimento médico público, deverá esperar alguns meses para a consulta e mais outros meses para fazer os exames, se necessários. No Brasil, como se sabe, ainda não existem planos de saúde interplanetários.

Trabalhar para ter como retorno único a alimentação, já dizia Smith, custa caro e é ineficiente. Para nosso épico poeta Castro Alves é imoral e uma violência contra a natureza humana. São fortes e insuperáveis argumentos em qualquer sociedade minimamente civilizada. Restou à escravidão papel de destaque nas páginas mais sombrias da história. No caso do Brasil, também serviu de estopim para movimentos populares de libertação do julgo do Império português.

Trabalhar para pagar impostos sem (ou com baixo) retorno na forma de serviços públicos, custa caro ao contribuinte e é ineficiente. Atacar, indiscriminadamente, o lucro das empresas e a renda pessoal para atender às necessidades do Estado, não da sociedade, não é republicano nem democrático. Ter o Estado como sócio não é um bom negócio. Precisamos de outro Tiradentes!